É carnaval,
tem muita festa lá fora...
todos parecem muito felizes... os normais, que adoram festas e curtem a vida...
Há alguns anos acostumei-me à janela, à primeira vista não sou normal, mas às vezes desço dessa mirada e embebedo-me mais que o costume, para aceitar o que me assombra. Nessas horas sou "normal", porque fico à disposição da miséria, sou mais uma na multidão. Isso não muda nada a minha vida, porque logo a bebedeira passa e eu sei um pouco da realidade, e vejo as pessoas com os rostos que tem. A maquiagem, mais do que um disfarce é uma verdade assombrosa de quem não tem mais nada a oferecer para a vida, exceto uma vitrina enfeitada. A si mesmos se enganam, a quem mais poderiam enganar.
Mas é carnaval, homens desfilam de mulheres, mulheres desfilam para homens sedentos...
todos sedentos de si mesmos, no logro da procura, onde nada se acha... Pois nada há para ser achado. Continuam, como há séculos, pierrots, arlequins e colombinas, combinados em disfarçadas tristezas...
Agora tudo efêmero, tudo por uma noite, ou por uma hora, ou o relance de um beijo...
Esvai-se a paixão numa estocada de carne, carnes frescas num açougue canibalesco, a preço de nada, pois que a multidão se esvazia em contorcionismos.
É manhã e a praia é vazia, como vazio é o sono de quem não descansa.
De quem busca vida em outras vidas e não se descobre como latência.
De quem busca conforto em outros ombros e não se oferece como comida à fome de si mesmo.
Como não sou "normal", nada posso dizer,
como não sou "normal" sou só risada fora de mim...
Pois que riam do que eu mesmo apenas lamento.
Dessa miséria eu já provei e sei o quanto aumentou a minha fome...
A vida é uma brincadeira, mas há que se descobrir a compaixão enquanto se persegue a própria míséria, fora disso há poucas lições.
Eu não sou eu, eu sou esse carnaval, por isso junto essas letras, para tentar compor esse enredo.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
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