domingo, 3 de fevereiro de 2008

É carnaval,
tem muita festa lá fora...
todos parecem muito felizes... os normais, que adoram festas e curtem a vida...
Há alguns anos acostumei-me à janela, à primeira vista não sou normal, mas às vezes desço dessa mirada e embebedo-me mais que o costume, para aceitar o que me assombra. Nessas horas sou "normal", porque fico à disposição da miséria, sou mais uma na multidão. Isso não muda nada a minha vida, porque logo a bebedeira passa e eu sei um pouco da realidade, e vejo as pessoas com os rostos que tem. A maquiagem, mais do que um disfarce é uma verdade assombrosa de quem não tem mais nada a oferecer para a vida, exceto uma vitrina enfeitada. A si mesmos se enganam, a quem mais poderiam enganar.
Mas é carnaval, homens desfilam de mulheres, mulheres desfilam para homens sedentos...
todos sedentos de si mesmos, no logro da procura, onde nada se acha... Pois nada há para ser achado. Continuam, como há séculos, pierrots, arlequins e colombinas, combinados em disfarçadas tristezas...
Agora tudo efêmero, tudo por uma noite, ou por uma hora, ou o relance de um beijo...
Esvai-se a paixão numa estocada de carne, carnes frescas num açougue canibalesco, a preço de nada, pois que a multidão se esvazia em contorcionismos.
É manhã e a praia é vazia, como vazio é o sono de quem não descansa.
De quem busca vida em outras vidas e não se descobre como latência.
De quem busca conforto em outros ombros e não se oferece como comida à fome de si mesmo.
Como não sou "normal", nada posso dizer,
como não sou "normal" sou só risada fora de mim...
Pois que riam do que eu mesmo apenas lamento.
Dessa miséria eu já provei e sei o quanto aumentou a minha fome...
A vida é uma brincadeira, mas há que se descobrir a compaixão enquanto se persegue a própria míséria, fora disso há poucas lições.
Eu não sou eu, eu sou esse carnaval
, por isso junto essas letras, para tentar compor esse enredo.

sábado, 19 de janeiro de 2008


... porque todos os dias plantamos em nossas mãos,
o alimento do asfalto, comeremos entrelaçados nossos pés em calos,
nossas mãos em breves comentários,
nossas bocas em bigodes chineses,
algodoando sonhos em edifícios cotidianos,
nossos ouvidos em dispersões auriculares,
nada há em colheitas, só palavras para nossos estômagos,
somente enxadas para nossas rações vazias,
somente sonhos para cabeças famintas,
somente comida para pássaros dementes,
então crucificaremos a mesa farta em nossas religiões de cansaço,
nossas mãos trêmulas suando meretrício,
comporão origamis de consolo em nucas pesadas de ausência,
em ventres férteis de sexo compulsório
nasceremos da sede composta no H2O de nossa flatulência vaidosa.

Porque somos nós os humanos, exceto o absurdo não justificamos nada.

Ser ou Não-Ser

Estar aqui, ou ali,
Ser isto, ou aquilo.
Pouco me importa pra onde a porta vai abrir,
Se vou entrar ou sair,
No fundo tudo o que interessa em mim é esse silêncio onde não sei,
Talvez ali, lugar nenhum, onde não haja perguntas ou respostas,
Palavra alguma, definição nenhuma, somente um silêncio do pensamento, nosso maior absurdo e algoz
O que sou, pra onde vou, se já fui, se voltei, se fiquei parada no tempo ou em qualquer lugar, o que tem isso de mais.
Se tudo o que posso querer, é querer, isso me exaure.
Me cansa, tanta vontade de tantas coisas.
Me dá uma preguiça...
Tudo o que quero é nada desejar, e essa é a maior ambição que alguém pode ter, um contra-senso completo.
Viver é mais grandioso, pois implica não pensar.
Talvez quem mais fale nisso, mais pense, como o Fernando Pessoa, que deve ter vivido pensando que vivia, ou querendo viver tudo, mas se perdeu na concha de todas as areias do mundo.
E escreveu tudo de diversas maneiras, para ser interpretado como talvez não quisesse.
Enquanto varro a casa, arrumo as camas, tantas coisas me vêem à cabeça, e nada penetra tanto como essa umidade a minha volta.
Abro a porta e antes das árvores tem um muro de pedras, isso me dói como os pássaros aprisionados, como a árvore que vi caindo esses dias.
Tantos muros que já pulei, quase não tenho forças para os que ainda encontrarei.Em todos os lugares as paredes invisíveis são as mais reais... tantas classificações...
no meu catálogo há um desenho de como eu sou para todos os outros, enquanto todos os outros não souberem que nada sou, que apenas me visto de palavras, para não desertar desse exército de significados.
A amizade com a vida é o que mais prezo, porque não preciso explicar nada.
Fico em silêncio e o silêncio se devolve à mim, naturalmente, como um ar puro e insignificante. Então descanso das representações.
Hoje é assim, amanhã será diferente, mas tudo sempre igual, alguns dias vamos às compras, o mercado é logo ali. De lá trazemos sacolas cheias de quereres e necessidades, que logo se sucederão em outras feiras...
Quase tudo já pensei e fiz mil tentativas, mas a história sempre esteve escrita,
antes de mim já era o todo, sou mero objeto da minha aceitação.

Disse sim e gravei em mim a marca do medo, inscrita em toda a humanidade... Depois disso abracei as justificativas prontas.
Vivo para essas justificativas, para esse mundo de coisas insignificantes, buscando dar-lhes significados, mas nada sei que me signifique.
Dentro de mim nenhuma leitura acaba, porque as palavras não dizem nada, estão esgotadas como se esgota a ordem pensada.
Que as palavras nos abandonem de vez!! Escrevamos nossos epitáfios apenas em flores espantadas de silêncio.
Precisamos morrer imediatamente, para que o mundo recomece sem nossas bocas dementes, e nossas palavras se percam nas ruínas da própria construção.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Para os amigos desse loteamento

Descobri um sentido nesse sem sentido,
e isso faz muito tempo, por isso recorro a vós.
Em verdade bem pouco tenho a dizer, tudo poderia se resumir em algumas letras,
mas a máquina de fazer tempo está inscrita em meus primórdios, assim como em todos os outros da minha espécie.
Então faço tempo, faço dias e noites que se sucedem,
faço conversas longas, faço incontáveis horas de trabalho,
marco com datas os dias do tempo que faço. Isso me toma tempo do tempo que tenho em mim.
Vivo num passado vivo, num baú pseudo-visionário que antevê revoluções jamais inscritas na nossa pequena alma quadrada. Como é pequeno o espaço em que nos movemos, mas parece tudo tão grande. Ouso dizer que o mundo inteiro cabe no meu umbigo.
Sei que são ares de grandeza, mas arrisco-me numa palavra inóspita para descrever nossas formas de vida: Estupidez.
No entanto já fomos criadores, em algum sítio da alma que não conhecemos existe um infinito a ser recriado, uma largueza ilimitada para um desfrute sem fim, talvez uma união com a coragem que nos abandonou.
Quem sabe possamos descobrir ainda nosso ser original, talvez ser nenhum, somente uma harmonia inusitada para seres cansados de símbolos.
Sei pouco das minhas imagens, mas sei pouco, por isso ausento-me de vez em quando, para que não se cansem os olhos dos meus amigos.
Tudo em mim é passado, exceto a pobreza, essa é sempre nova e recompensadora, é o que me mantém entre todos.
Quero manter-me desse lado sem história, onde ainda há ar respirável, longe das teorias e das elocubrações punheteiras dos intelectos de plantão.
Nada há que se possa dizer com certeza, mesmo a morte pode ser infiel, depois da vida há a sobrevida das infinitas crenças que nos deram. Só uma coisa vos peço: que o medo não guarde o nosso amor e a vida nos perca.